quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Olhinhos

A cidade corre, é cheia. Como em um video em alta velocidade, as pessoas parecem me carregar pelas ruas. Vejo o concreto armado ao meu redor, cercando-me, mas não vejo os olhos. Deus, como é difícil olhar nos olhos em meio a uma multidão apressada!
Carros, passos, calmante, cigarros, cachorros, calçadas, fumaça, caos, ônibus... No ônibus! No ônibus! Sim, no ônibus! ... Os olhos!

- Sempre pensei na injustiça em se vangloriar apenas a beleza dos olhos claros. Olhos azuis então são o mito do ideal de beleza! Teoricamente quando se diz "fulano tem olhos azuis" já se imagina alguém bonito.
Não sou hipócrita de dizer que não acho bonitos os olhares cristalinos, mas vejo olhares agateados também em outras cores. E sendo uma aitude preconceituosa ou não, eu confesso: sempre que vejo alguém com olhos claros tento imaginar se sem aquela cor de olhos seria também bonito. Aí sim posso formar minha opinião estética sobre ele. Não gosto de padrões. -

O ônibus em alta velocidade, ruas e avenidas pelas janelas, vozes, sons, meu sono. Ao meu lado, os olhos! Um par de olhos puxados, bem puxadinhos. Não eram nitidamente de descendência oriental, mas traziam o olhar das têmporas e me fitavam.
Par de olhos profundos e generosos em meio àqueles tantos que por mim somente passavam. Lindo!

- Sempre tive uma queda por olhos puxados, orientais ou não, claros ou escuros. Aquela puxadinha na lateral do rosto é das coisas mais penetrantes e sensuais em um olhar. E como eu amo olhares! -

Par de olhos que correu por um jornal e logo voltou para seu livro de poemas. Sim! Olhos puxadinhos que liam Vinícius de Moraes.
Eu quis recitá-lo, quis musicar aquele olhar. Enquanto ele se cruzava com o meu cantei em silêncio sambas e bossas. E quis completar as estrofes enquanto ele declamasse algum soneto ou poema de amor.
Ah, que bela tarde de meu cotidiano! Que belo caminho ao trabalho!
Uma tarde de quarta-feira com Vinícius, com olhares trocados, olhos puxadinhos...
Pena que o ponto já é o próximo. Lá se vão meus olhinhos. Lá se vai o livro de Vinícius. E o jornal.
Lá se vai o tempo. Lá se vai o ônibus.
Eu vou com aqueles olhos.
E quem sabe em um próximo ponto da cidade concreta em trânsito frenético não encontro uma nova canção, um belo poema, um novo olhar, ou um amor...

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