Moreno, alto, bonitão... Vejam só! “Difícil de achar”. Quando li no anúncio de propaganda de agência de namoro, foi impossível não parar e personificar em minha mente aquele ser abençoado. Fantasiar com um moreno que seria a “solução dos meu problemas, carinhoso, bom nível social”. Seria inteligente? Na minha imaginação sim. Ou então de que serviria a perfeição da carcaça daquela criatura?
Cliquei no anúncio – claro, minha gente, ou pensaram que li isto num outdoor? Os tempos são outros... – que me direcionou a uma página com várias fotos e descrições não menos chamativas que as do “meu” moreno. Sim, confesso que a maioria das descrições exaltava o produto de modo que em um primeiro olhar encantado não reparássemos nos defeitos de fábrica. Mas algumas me pareceram um tanto quanto eufemistas.
Pois bem. Fui ao que me interessava: o moreno. Precisava encontrá-lo entre tantas opções banais e tentadoras. Cadastrei-me na página de relacionamentos amorosos e comecei a minha busca incessante pelo homem da minha vida.
Porém, nada do que eu encontrava era compatível com os anúncios. Nem mesmo quando digitava o próprio nome do moreno: Luis Gásquez (Olhem bem! Um partidão! Além de todas as qualidades já antes mencionadas, teria ele uma possível descendência européia próxima. Fantasiei meus passeios, minha cidadania espanhola, minha assinatura Gásquez...). Mas nada, nada do tal moreno que ali me levara.
Decidi então adicionar ao meu perfil outros compatíveis, também interessantes – que não eram “O” moreno, mas... conhecer pessoas, fazer amizades (ainda mais com moços bonitos e de aparente bom gosto) não faz mal, não é mesmo?!
Só que, com o tempo, todos aqueles “amigos novos” acabavam soando desinteressantes. Alguns em um tempo maior, depois de trocar algumas palavras, ou até e-mails, outros em um tempo menor, após termos somente nos apresentado por este meio virtual.
Estranho... justo eu que, embora me utilize tanto do meio virtual profissionalmente ou para manter contatos com “amigos reais”, temo tanto as relações virtuais, fui me encantar pelo moreno Gásquez e ali estava conhecendo – se é que se pode assim dizer – novas pessoas.
Bem, pela observação entre travessões já se pode perceber que minha confiança não é das maiores neste tipo de relação. E não é questão de confiança nas pessoas, mas na relação mesmo.
Relação, para mim, independente de que espécie seja, deve ter olho no olho, diálogo, verdade. Relação, seja entre familiares, amigos ou amantes, deve ter um caminhar lado a lado, um conhecer mais profundo, a certeza que se constrói progressivamente de estar ali alguém que lhe estenderá a mão.
Não consegui estabelecer relações de verdade naquele espaço. Nenhum relação com laço, afeto, sinceridade. No máximo consegui companhias e bate-papos para noites insones e horas de ócio.
(Devo admitir que foi um laboratório interessante da observação do comportamento virtual humano)
E nada do moreno.
Abandonei a página por um tempo. Recebia notificações por correio eletrônico mas nem me dava ao trabalho de checar. O moreno seria apenas um chamativo, uma “propaganda enganosa”.
Porém era uma propaganda que não me saia da mente, dos sonhos, dos desejos mais secretos, das fantasias, da cama, do ideal de amor.
Uns meses depois, ao checar minhas mensagens, vejo que recebi uma notificação de adesão de um Luis Gásquez. Seria homônimo? Ou seria o destino me proporcionando o tão sonhado encontro com meu "muso" cibernético?
Corri para a página de relacionamentos e lá estava a foto do moreno, bonitão, aparentemente de bom gosto musical e artístico. Hesitei. Pensie no que antes não havia pensado: o que faria um homem daquele solteiro? Um pedaço de mau caminho procurando um amor na internet?! Estranho...
Mas respondi à adesão com uma mensagem eletrônica e começamos a nos falar quase todos os dias, por ali, pelo meio virtual. Dali passamos para o telefone. desu do céu, que voz!
Eu estava apaixonada. Não, eu estava no mínimo encantada por aquele homem. E decidi conhecê-lo. E marcamos nosso primeiro encontro, em um restaurante francês, com toda a finesse e romantismo que um início de história de amor merece.
Cheguei lá e ele já estava à mesa. Aquele homem alto, de costas para a porta, sentado a minha espera. Eu, trêmula, contornei a mesa. Ele imediatamente se levantou.
Foi aí o momento fatídico! Como que em um desastre, todo o meu encanto caiu por terra. Toda aquela imagem de Luis Gásquez, o homem perfeito, desmoronou.
Não, ele não tinha bafo. Não usava gel no cabelo, mas não era despenteado. Não estava de calça justa. Ele estava muito bem vestido, por sinal. Mas... usava sapato de bico fino. Meu Pai, como eu odeio homem de sapato de bico fino!
Eu quis correr daquele lugar. Nunca mais queria ver Luis. Tudo o que ele dizia, por mais inteligente que fosse, parecia asneira. Passei a odiar Baudelaire só porque ele disse gostar.
Minha paixão acabou. Acabou meu encantamento.
Todos os sonhos e pensamentos se foram junto daquela imagem de "sapato-de-bico-fino -matador-de-baratas-em-canto-de-sala". Jantei com o moreno, mas meu olhar não conseguia desviar dos sapatos. Não soube disfarçar. Foi um desastre.
E depois daquele dia nunca mais quis ver Gásquez. Até jmudei meus telefones. Não respondia às mensagens eletrônicas, bloqueei seu endereço e deletei meu perfil da página de relacionamentos.
Como é difícil a paixão e o encantamento! A realidade vai às avessas deles.
O virtual muitas vezes alimenta muito mais o sonho que o real.
Já fala Deleuze sobre esta linha tênue que separa o que virtualizamos de nossa realidade.
E a paixão tem dessas coisas. Conhecer o outro de fato pode causar estranhamento.
Talvez se não conhecesse Luis Gásquez até hoje sonharia com ele, esperaria por ele, o desejaria.
Mas a realidade me fez desistir. Ela me colocou diante de sapatos de bico fino, os quais não pertenciam ao meu sonho.
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