domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cicatrizes.

É noite. Um vento frio entra pela janela da minha sala em pleno verão. Eu, sentada na minha poltrona, pés esticados, Baudelaire em mãos. Tomo meu chá, como de costume. Nada anormal. Até então, nenhuma ligação. Nenhuma presença. Nenhum pensamento diverso. Nada distante da normlidade.
Cubro meus pés e tento concentrar-me em minha leitura - hora do dia sagrada para mim.
Chove. Os pingos compõem uma canção suave que adentra a casa juntamente com a brisa úmida e fresca. Canção de ninar (Ou seria uma canção de amor?).
Lembranças, devaneios, sonhos...
A janela aberta deu espaço para a invasão daquilo que seria só meu. Pensamentos penetrados sem consentimento, sem pedido de licença, por recordações de um tempo bom. Nada mais que bom. Até porque não cabe mais a mim adjetivá-lo. Mas tempo bom, por mais que seja curto e passado, é bom. E marca.
As cicatrizes estão na pele, nas vísceras e na alma, embora bem camufladas, quase imperceptíveis.
Se tem cicatriz é porque houve corte ou machucado, por mais que o tempo seja gratamente nomeado.
Você estava ali. Não sei dizer exatamente o dia ou o lugar. Só estava ali, onde sempre estivemos, naquele tempo. Estava ali a dizer o que sempre me disse e fazer o que sempre me fez e que me mantinha no mesmo pulsar de segundo que o seu.
Tocava-me como sempre me tocou. Sussurrava-me como sempre fazia nas melhores declarações de amor. Tinha-me como sempre me teve em seus braços.
Aquele espaço-tempo indefinido migrou-se para a minha sala já gelada de tanto vento e respingos da chuva. Você entrou, por ali mesmo pela janela, por onde entrava a brisa, por onde eu via a noite, de onde vinha o som das águas. Entrou sem bater, sem se anunciar, sem pedir licença. Ora, se o tempo era nosso, o espaço era também seu! E eu fui sua.
Naquela mesma sala, segundos atrás gélida, agora cheia de um vapor quente, a princípio aconchegante, e depois meio que desesperador, cheio de calor, cheio de embriaguez, cheio de querer.
A cicatriz camuflada por um momento se abriu, exalando uma paixão efêmera, porém entorpecente. Você foi meu. Eu fui sua. Sem porquês, que não vinham ao caso. Sem antes ou depois, que não cabiam ali. Sem a seda do lençol.
Senti novamente seus dedos pelos meus cabelos, nosso suor nos unido ainda mais, sua pele nas minhas unhas, minha boca na sua.
E como que um vento forte viesse pra levar aquelas horas e levar você dali, minha janela se fechou bruscamente, violentamente, num barulho que me despertou.
Você se foi.
Com os olhos ainda entreabertos eu busquei pelo livro deitado sobre minha coxa e pela xícara de chá na mesa ao lado. Acendi meu último cigarro como quem espera o tempo passar mais rápido enquanto tem nos pensamentos um filme de um dia, de um plano futuro, uma história ou ilusão, ou somente situações corriqueiras. Cicatrizes abertas. Dores. Cheiros. Gostos. Uma respiração profunda. Uma despedida. Um alívio. Tristeza alegre e alegria triste.
Acerto de contas.
A fumaça parecia mudar aquela cena anterior e trazer um novo capítulo menos inebriante, mais claro após a neblina.
Era hora de esconder novamente as cicatrizes, deixá-las fechadas, camufladas para não serem vistas nem mesmo por mim mesma. Aquela parte do meu corpo que foi sua. Que carrega um pedaço do seu. Nada mais dói. Ao menos se não for mexido.
Levantei-me, fechei a janela sentindo o último suspiro frio. O chá que também já esfriara foi abandonado. Baudelaire competia com meu sono.
Fui para o meu quarto tentar recuperar minha atual intimidade. As cicatrizes estão fechadas. A janela está fechada. Nada mais pode entrar ou sair.

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