terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Dentro

Há horas que estou no mesmo canto. É um mesmo canto, estático, mas não sei mais onde estou. Depois de algumas horas me perdi.
Olhar para dentro de si nem sempre é fácil. É como se despir diante de um espelho honesto, nem sempre sutil e nada eufemista.
Olhar para dentro de si nem sempre significa penetrar por terras já descobertas e conhecidas. Nem sempre é caminhar por um caminho claro e bem delimitado por um mapa já traçado.
Pelo contrário.
Olhar para dentro de mim me faz (re)descobrir lugares e não-lugares, estradas e labirintos, ver imagens nem sempre tão nítidas ou agradáveis aos olhos.
Perdi-me dentro de mim mesma.
Já não sei quem sou nem o que faço neste canto. - Aliás, onde fica este canto mesmo?
O desespero levou minha memória junto com a vodca.
Gostar ou não gostar do que se vê não vem ao caso. Nem mesmo querer modificar ou ser outra pessoa. Se não se sabe nem mesmo que é, como ser outro?
Encho minha caneca com café e acendo meu cigarro. Despertar para um tempo-instante talvez me traga de volta alguma realidade.
Ou não.
Aos poucos eu começo e olhar para minha mediocridade.Um ser jogado num canto qualquer, com a memória despedaçada em mil, com fragmentos jogados em outro canto, boca seca e amarga. Gosto de café. E só.
Quem eu seria?
Quem seria aquela pessoa em um mundo de águas, de gente, de bichos?
Quem seri aquela pessoa em um mundo cruel, injusto, competitivo?
Quem seria esta pessoa viva em um meio de mortos?
Ou estaria eu morta em meio a vivos?
Não chove. Não venta. Não faz frio nem sol.
Mas dentro de mim é tempestade e arco-íris. É areia e neve. É inverno e verão.
Quero sair daqui.
Sair deste canto, daqui de dentro.
Quero me libertar do que está amarrado e engessado com minha alma.
Quero ver o que nunca vi, viver o que nunca vivi, com outros olhos, outro paladar, outros ouvidos e outro tado.
Quero ser outra, sendo eu mesma.
E quem sabe assim eu consiga me despir diante do meu próprio campo de visão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pensamentos escritos

Eu e meus sonhos reais...
Acordei sem saber se estava aqui ou a 580 km. Sem saber se estava em minha cama ou na tua.
Acordei envolta por braços que eu não via, sentindo ainda uma respiração quente que se distanciava.
Preparei meu café pensando em preparar também a tua xícara. Li meu jornal enxergando teu rosto em cada palavra, em cada imagem.
Meu telefone toca. É ele.
Ah, como seria confortante ouvir do outro lado tua voz! Ele que me perdoe.
Quando não há desejo que mova como o que move a lembrança, o pensamento é a melhor companhia.
Arrastei-me pela rua. O trabalho monótono naquele gabinete fluia entre xícaras de café e maços de cigarro.
Onde estarias?
O desejo que cruzasses aquela porta (não sei o que te levaria ali, mas...) era maior que qualquer estímulo para estar ali.
Se não cruas, queria eu sair pelo mundo. Não em tua busca. Em busca do meu pensamento, devaneio interno. Andar sem rumo, sem lenço, sem companhia. Comigo, só meu desejo e meu cigarro.
Andar até o sol baixar e o céu pipocar de estrelas.
E continuar andando até não haver mais continuação para a história que se passa em minha mente.
Já dizia minha mãe que o coração quando preenchido anula a cabeça. Assim como coração vazio permite cabeça cheia.
Retorno a atenção ao gabinete. Um documento, outro e mais outro. Minhas assinaturas em aleatoriamente como quem assina cartas de amor.
Não que assinar cartas de amor seja coisa de pessoas que amam. Chamamos de cartas de amor qualquer tipo de carta romântica.
O que há entre nós é desejo. Afeto sim. Mas afeto apaixonado.
O ponteiro do relógio me chama para a porta da rua. Enfim, termina mais um expediente.
Deixo o gabinete e ando em linha reta, sem rumo, sem direção. Sem preocupação, sem casa.
Meu abrigo é o que me faz sonhar.
A noite cai e continuo andando. A imaginação é mais fértil sob a luz da lua e das estrelas.
Que noite!
E quando eu cansar, continuo andando para não findar a história que escrevo...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Passional

Amou-o tanto gratuitmente, espontaneamente, sem nada querer em troca a princípio. Nem o afeto.
E amar não é ter, bem sabemos. Não necessariamente. Por vezes meramente emprestamos a pessoa - ou nem isso, dependendo do grau de naturea platônica do amor.
Ela o amou; amou-o verdadeiramente. Ele não.
Ela se doou. Ele não.
Ela somente conseguiu um mísero momento, como que um sequestro relâmpago de uma alma. Nem emprestado pode lhe tomar, coitada.
- Coitada não. Ao menos viveu.
E cá entre nós, antes sofrer de amor que não sentir ou alienar-se ao sentimento. Sofrer nos torna mais humanos, mais vivos. -
E o sofrimento dela não vem ao caso. Mas o amor (?!).
Ela o amou inocentemente e intensamente ao mesmo tempo. Ela se entregou. Ele não.
E o minúsculo tempo que o teve foi eterno. E o beijo fez com que ela julgasse que sugou sua alma. Dona da alma, seria sua dona.
Mas ela seria dele. Ele não.
Para ela sim.
O amor então não era mais gratuito. Era paixão que cega e tem ambição por vidas.
Ela estava louca. Ele não.
Ela o quis, e se não fosse seu, quis que ninguém mais o possuise, ou sequer tocasse.
Ele não lhe deu a escritura ou atestado de posse. Sequer lhe deu o amor ou qualquer outro sentimento que não fosse pena. Amor não é posse ou gratidão.
Ela o perseguiu. Ele fugiu.
Ela perseguiu suas amantes, que também fugiram.
Ela enlouqueceu. Ela fez loucuras.
Ele tentou se salvar. Ela não permitiu.
Ela não mais o amava, mas o odiava, como que estivesse ultrapassado a fronteira limítrofe (e tênue) entre tais sentimentos.
Era um ódio passional (?!).
Ela quis ser mais que sua posse. Quis ser sua dona.
Ele preferia se distanciar cada vez mais.
Ela chorava. Ele temia.
Ele quis matá-la, mas só quis.
Ela o matou.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Novo Egito

Se eu não mudo, o povo Mubarack.
Liberdade.
Paz.
Cai o ditador. Cairo.
Berço da História, agora com mais luz.
Cairo de paz.
Mas não cai a paz.
Luta de paz.
Luta de um povo.
Novos tempos.
Novo Egito.
Livre esperança.

Nosso lugar

Você que chega de mansinho e olha nos meus olhos.
Você que me fala de flores, fala-me de jogos, de amores.
Você que me faz sorrir com suas feições, que me cativa com os gestos.

Vem logo pro lugar que é só seu. Vem pra onde não pode mais sair.
Vem ser dono dos meus sentidos, penetrá-los e dominá-los.
Vem acender o que não pode se apagar.

Mãos. Olhares. Nuca. Boca. Beijo.
Lençóis. Braços. Abajures. Pés.
Cama. Chão. Cortina. Perfume.

Seu cheiro no meu cheiro. Sua boca na minha.
Seu peito no meu. Sua mão em minha cintura.
Em meu seio. Meu pescoço. Meu rosto.
Sua mão em minha pelve.
Sua pelve na minha.

Noites e dias - pra quê tempo?
Eternidade de desejo. Amor latente.
Pulso que não adormece.
Você que sempre volta pro lugar que não é mais meu.
Não é seu.
É nosso.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cicatrizes.

É noite. Um vento frio entra pela janela da minha sala em pleno verão. Eu, sentada na minha poltrona, pés esticados, Baudelaire em mãos. Tomo meu chá, como de costume. Nada anormal. Até então, nenhuma ligação. Nenhuma presença. Nenhum pensamento diverso. Nada distante da normlidade.
Cubro meus pés e tento concentrar-me em minha leitura - hora do dia sagrada para mim.
Chove. Os pingos compõem uma canção suave que adentra a casa juntamente com a brisa úmida e fresca. Canção de ninar (Ou seria uma canção de amor?).
Lembranças, devaneios, sonhos...
A janela aberta deu espaço para a invasão daquilo que seria só meu. Pensamentos penetrados sem consentimento, sem pedido de licença, por recordações de um tempo bom. Nada mais que bom. Até porque não cabe mais a mim adjetivá-lo. Mas tempo bom, por mais que seja curto e passado, é bom. E marca.
As cicatrizes estão na pele, nas vísceras e na alma, embora bem camufladas, quase imperceptíveis.
Se tem cicatriz é porque houve corte ou machucado, por mais que o tempo seja gratamente nomeado.
Você estava ali. Não sei dizer exatamente o dia ou o lugar. Só estava ali, onde sempre estivemos, naquele tempo. Estava ali a dizer o que sempre me disse e fazer o que sempre me fez e que me mantinha no mesmo pulsar de segundo que o seu.
Tocava-me como sempre me tocou. Sussurrava-me como sempre fazia nas melhores declarações de amor. Tinha-me como sempre me teve em seus braços.
Aquele espaço-tempo indefinido migrou-se para a minha sala já gelada de tanto vento e respingos da chuva. Você entrou, por ali mesmo pela janela, por onde entrava a brisa, por onde eu via a noite, de onde vinha o som das águas. Entrou sem bater, sem se anunciar, sem pedir licença. Ora, se o tempo era nosso, o espaço era também seu! E eu fui sua.
Naquela mesma sala, segundos atrás gélida, agora cheia de um vapor quente, a princípio aconchegante, e depois meio que desesperador, cheio de calor, cheio de embriaguez, cheio de querer.
A cicatriz camuflada por um momento se abriu, exalando uma paixão efêmera, porém entorpecente. Você foi meu. Eu fui sua. Sem porquês, que não vinham ao caso. Sem antes ou depois, que não cabiam ali. Sem a seda do lençol.
Senti novamente seus dedos pelos meus cabelos, nosso suor nos unido ainda mais, sua pele nas minhas unhas, minha boca na sua.
E como que um vento forte viesse pra levar aquelas horas e levar você dali, minha janela se fechou bruscamente, violentamente, num barulho que me despertou.
Você se foi.
Com os olhos ainda entreabertos eu busquei pelo livro deitado sobre minha coxa e pela xícara de chá na mesa ao lado. Acendi meu último cigarro como quem espera o tempo passar mais rápido enquanto tem nos pensamentos um filme de um dia, de um plano futuro, uma história ou ilusão, ou somente situações corriqueiras. Cicatrizes abertas. Dores. Cheiros. Gostos. Uma respiração profunda. Uma despedida. Um alívio. Tristeza alegre e alegria triste.
Acerto de contas.
A fumaça parecia mudar aquela cena anterior e trazer um novo capítulo menos inebriante, mais claro após a neblina.
Era hora de esconder novamente as cicatrizes, deixá-las fechadas, camufladas para não serem vistas nem mesmo por mim mesma. Aquela parte do meu corpo que foi sua. Que carrega um pedaço do seu. Nada mais dói. Ao menos se não for mexido.
Levantei-me, fechei a janela sentindo o último suspiro frio. O chá que também já esfriara foi abandonado. Baudelaire competia com meu sono.
Fui para o meu quarto tentar recuperar minha atual intimidade. As cicatrizes estão fechadas. A janela está fechada. Nada mais pode entrar ou sair.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Realidade?

"Porque no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia"

[Caio Fernando Abreu]


Sua

Fiz um bolo pra você. Vem logo!
Não é seu aniversário, mas precisamos comemorar. Eu preciso.
Eu te espero.
Eu espero o tempo que for, na verdade.
Espero pra ser sua de novo, pra matar o que não pode morrer.
Espero pra amar de amor. "Morrer de amor e depois agradecer".
Sem café amargo, só nosso bolo.
Só o doce do desejo apaixonado.
Brindemos à paixão!
O que seria do amor se não fosse a paixão?! Amor morno adormece, ou morre.
Amor com paixão sustenta, revigora, move. Queima.
Sustenta, alimenta.
Como um cálice de vinho. Queijos. Chocolate. Minha boca. Minha vida.
O que você quiser.
Antes, durante, depois.
Quando quiser.
Sou sua.
Minha pele. Meus olhos. Meu corpo é teu corpo. Teu corpo é extensão do meu.
Somos quase um. Mas somos dois. Porque dois é mais e é melhor que um.
Entre 2 há respostas que um não pode dar. Há carícias que um só não pode fazer por si mesmo.
Chega logo!
Vamos comemorar!
Sentir-lhe mais uma vez, ouvir-lhe falando baixinho no meu ouvido. Sentir sua respiração e respirar no mesmo ritmo seu.
O calor que sobre pelas pernas, pelo ventre, pela face...
Vem. Se for pra ir novamente, vamos embora. Mas vem comigo!
Eu mostro a estrada pra você. Meu peito, o clarão, o caminho.
Vem que eu te guio.
Entra pela mesma porta, nem precisa avisar.
Parte o bolo que é seu. Come um pedaço de mim.
Você que me acalma, me agrada, me diverte.
É dono do meu amor apaixonado. Calmaria que grita em meu peito e tranquiliza em seus braços.
E eu...
Eu sou sua.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Nosso tempo

Uma fração de milésimo de segundo. Uma quantia exata. Um compartimento preciso de tempo.

Isso basta.

Gira mundo, corre tempo, na pressa dos ponteiros, em um piscar digitalizado.

Tudo muda. E tudo fica. Fica na mudança e fica estanque.

Eu vou e você fica. Ou será que é você quem se vai?

Olhinhos

A cidade corre, é cheia. Como em um video em alta velocidade, as pessoas parecem me carregar pelas ruas. Vejo o concreto armado ao meu redor, cercando-me, mas não vejo os olhos. Deus, como é difícil olhar nos olhos em meio a uma multidão apressada!
Carros, passos, calmante, cigarros, cachorros, calçadas, fumaça, caos, ônibus... No ônibus! No ônibus! Sim, no ônibus! ... Os olhos!

- Sempre pensei na injustiça em se vangloriar apenas a beleza dos olhos claros. Olhos azuis então são o mito do ideal de beleza! Teoricamente quando se diz "fulano tem olhos azuis" já se imagina alguém bonito.
Não sou hipócrita de dizer que não acho bonitos os olhares cristalinos, mas vejo olhares agateados também em outras cores. E sendo uma aitude preconceituosa ou não, eu confesso: sempre que vejo alguém com olhos claros tento imaginar se sem aquela cor de olhos seria também bonito. Aí sim posso formar minha opinião estética sobre ele. Não gosto de padrões. -

O ônibus em alta velocidade, ruas e avenidas pelas janelas, vozes, sons, meu sono. Ao meu lado, os olhos! Um par de olhos puxados, bem puxadinhos. Não eram nitidamente de descendência oriental, mas traziam o olhar das têmporas e me fitavam.
Par de olhos profundos e generosos em meio àqueles tantos que por mim somente passavam. Lindo!

- Sempre tive uma queda por olhos puxados, orientais ou não, claros ou escuros. Aquela puxadinha na lateral do rosto é das coisas mais penetrantes e sensuais em um olhar. E como eu amo olhares! -

Par de olhos que correu por um jornal e logo voltou para seu livro de poemas. Sim! Olhos puxadinhos que liam Vinícius de Moraes.
Eu quis recitá-lo, quis musicar aquele olhar. Enquanto ele se cruzava com o meu cantei em silêncio sambas e bossas. E quis completar as estrofes enquanto ele declamasse algum soneto ou poema de amor.
Ah, que bela tarde de meu cotidiano! Que belo caminho ao trabalho!
Uma tarde de quarta-feira com Vinícius, com olhares trocados, olhos puxadinhos...
Pena que o ponto já é o próximo. Lá se vão meus olhinhos. Lá se vai o livro de Vinícius. E o jornal.
Lá se vai o tempo. Lá se vai o ônibus.
Eu vou com aqueles olhos.
E quem sabe em um próximo ponto da cidade concreta em trânsito frenético não encontro uma nova canção, um belo poema, um novo olhar, ou um amor...

Conjuga-me...

... ou te devoro,

verbo meu!

Vai! Vai ser feliz!

Tu que disseste ver...

Não reclames que és solitário, que ninguém te estende a mão. Eu quis estar ao seu lado, andar ombro a ombro, cuidar-te, proteger-te, amparar-te, ajudar-te... Tu só me fizeste distanciar de ti, mesmo eu não querendo.
Distanciaste de mim, deu-me em troca de amor o desprezo, a ignorância, o desdém, o descuido.
Enquanto eu te buscava, tu fugias de mim.
Enquanto eu queria te proteger, tu querias desatar nós.
Enquanto eu pensava em ti, tu pensavas em outra.
Enquanto eu sonhava contigo, tu dormias em outra cama.
Fiz o que foi e o que não foi de meu alcance. Mesmo longe fisicamente sentia-me perto. E o perto tem cheiro, temperatura.
Queria beber-te na textura de cada gole. Queria fazer de ti a causa da minha embriaguez.
Mas quando mais precisei, tu me deixaste. Fugiste de mim sem razões sinceras.
Justificaste com fraqueza aquilo que não se pode justificar.
Quebraste o que eu acreditava que nos unia de forma concreta.
Foste desonesto com aquilo que nos moveu por meses. Foste vulnerável ao tempo.
Eu tentei. Usei de todas as minhas artimanhas e forças. Passei por cima de um orgulho que me faria tropeçar. Insisti. Abri meu peito. Acreditei na pequenez de todos os obstáculos diante do que vivenciamos.
Mas fostes covarde. Covardemente rude.
Não assumes que não me desejas...
Foste fraco em lealdade. Desonesto.
Sim, foste desonesto comigo e consigo mesmo.
Não me conforta pensar nisso, mas causa-me dor maior.
Quero seu bem, querer-te bem, querer-te comigo. E só comigo.
E se não posso ter-te, alimento-me aqui de água e sal do meu suor e de minhas lágrimas, impotente por ter-me deixado, mas sem entregar os pontos.
Não te seguro mais a mão. Não te prendo.
Estás solto para viveres o que precisas viver, o que acreditas que te brindará com felicidade (e que te brinde, por favor).
Apenas respeito tua decisão porque te gosto.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O instante

Eu apenas sou. Isso nem sempre basta. E cada instante é sempre. Cada instante é uma metamorfose; é meu ser que se constrói e reconstrói progressivamente.
Eu sou eu mesmo. Não sou mais ninguem. Não sou de mais ninguém. Sou meu, só meu.
Cada instante é meu. Cada segundo meu sou eu.
Um instante também é vida.
Um instante é bastante, é muito, é sempre.
Um instante pode ser tudo.
Um instante pode ser eu.
E ser eu nem sempre basta.

Perdoa-me

Perdoa-me por ser como sou. Perdoa-me por não saber mais quem sou.
Perdoa-me por qualquer motivo que te fizera distanciar, que me fizera distanciar-me de mim mesma.
Perdoa-me por minha sofreguidão e por trazer-ter a minha dor.
Perdoa-me se te sentistes traido.
Perdoa-me por querer roubar tua vida; por querer viver dentro de teu corpo pra me sentir mais perto, mais tua.
Perdoa-me se lhe fiz faltar o ar, se lhe roubei momentos de prazer ou o sufoquei com minhas carícias.
Perdoa-me por amar-te demais. Por querer-te na mesma cama em que deito. Por querer-te no mesmo espaço que ocupo. Por querer-te em cada trago do cigarro que fumo.
Perdoa-me se choro, e se um dia sorri apenas por me bastar com tua companhia.
Perdoa-me se me faltam as palavras, se me sobram lágrimas e se me afogo em soluços.
Perdoa-me por querer-te tanto. E por querer-te bem mais que minha própria vida. Por querer-te bem. Por querer-te fazer bem.
Perdoa-me pelos afagos, pelo afeto, por todo o sentimento.
Perdoa-me se meu sexo depende do seu.
Perdoa-me se com os olhos fechados ainda sinto seu cheiro, seu toque, sua barba por fazer.
Perdoa-me se para mim sua pele ainda toca a minha.
Perdoa-me por ter sido tua, e tão tua, que ainda carregas em teu corpo um pedaço meu.
Perdoa-me se carreguei um pedaço de ti. Se fiz-te um homem feliz e amado.
Perdoa-me se não te esqueço.
Perdoa-me se ainda te desejo, se ainda te sonho e almejo o afeto teu.
Perdoa-me por deitar com outro homem pensando em ti.
Perdoa-me por só pensar em ti.
Perdoa-me por chamar-te no silêncio das línguas entrelaçadas, das pernas encaixadas, das mãos sobrepostas.
Perdoa-me se ainda penso que te mereço e se meu olhar ainda cruza o teu.
Perdoa-me por meus erros. E perdoa-me por meus acertos.
Perdoa-me por minha existência neste meu querer incessante e inconsequente.
Perdoa-me se ainda te quero. Perdoa-me se empre te esperarei..

O moreno

Moreno, alto, bonitão... Vejam só! “Difícil de achar”. Quando li no anúncio de propaganda de agência de namoro, foi impossível não parar e personificar em minha mente aquele ser abençoado. Fantasiar com um moreno que seria a “solução dos meu problemas, carinhoso, bom nível social”. Seria inteligente? Na minha imaginação sim. Ou então de que serviria a perfeição da carcaça daquela criatura?

Cliquei no anúncio – claro, minha gente, ou pensaram que li isto num outdoor? Os tempos são outros... – que me direcionou a uma página com várias fotos e descrições não menos chamativas que as do “meu” moreno. Sim, confesso que a maioria das descrições exaltava o produto de modo que em um primeiro olhar encantado não reparássemos nos defeitos de fábrica. Mas algumas me pareceram um tanto quanto eufemistas.

Pois bem. Fui ao que me interessava: o moreno. Precisava encontrá-lo entre tantas opções banais e tentadoras. Cadastrei-me na página de relacionamentos amorosos e comecei a minha busca incessante pelo homem da minha vida.

Porém, nada do que eu encontrava era compatível com os anúncios. Nem mesmo quando digitava o próprio nome do moreno: Luis Gásquez (Olhem bem! Um partidão! Além de todas as qualidades já antes mencionadas, teria ele uma possível descendência européia próxima. Fantasiei meus passeios, minha cidadania espanhola, minha assinatura Gásquez...). Mas nada, nada do tal moreno que ali me levara.

Decidi então adicionar ao meu perfil outros compatíveis, também interessantes – que não eram “O” moreno, mas... conhecer pessoas, fazer amizades (ainda mais com moços bonitos e de aparente bom gosto) não faz mal, não é mesmo?!

Só que, com o tempo, todos aqueles “amigos novos” acabavam soando desinteressantes. Alguns em um tempo maior, depois de trocar algumas palavras, ou até e-mails, outros em um tempo menor, após termos somente nos apresentado por este meio virtual.

Estranho... justo eu que, embora me utilize tanto do meio virtual profissionalmente ou para manter contatos com “amigos reais”, temo tanto as relações virtuais, fui me encantar pelo moreno Gásquez e ali estava conhecendo – se é que se pode assim dizer – novas pessoas.

Bem, pela observação entre travessões já se pode perceber que minha confiança não é das maiores neste tipo de relação. E não é questão de confiança nas pessoas, mas na relação mesmo.

Relação, para mim, independente de que espécie seja, deve ter olho no olho, diálogo, verdade. Relação, seja entre familiares, amigos ou amantes, deve ter um caminhar lado a lado, um conhecer mais profundo, a certeza que se constrói progressivamente de estar ali alguém que lhe estenderá a mão.

Não consegui estabelecer relações de verdade naquele espaço. Nenhum relação com laço, afeto, sinceridade. No máximo consegui companhias e bate-papos para noites insones e horas de ócio.

(Devo admitir que foi um laboratório interessante da observação do comportamento virtual humano)

E nada do moreno.

Abandonei a página por um tempo. Recebia notificações por correio eletrônico mas nem me dava ao trabalho de checar. O moreno seria apenas um chamativo, uma “propaganda enganosa”.

Porém era uma propaganda que não me saia da mente, dos sonhos, dos desejos mais secretos, das fantasias, da cama, do ideal de amor.

Uns meses depois, ao checar minhas mensagens, vejo que recebi uma notificação de adesão de um Luis Gásquez. Seria homônimo? Ou seria o destino me proporcionando o tão sonhado encontro com meu "muso" cibernético?

Corri para a página de relacionamentos e lá estava a foto do moreno, bonitão, aparentemente de bom gosto musical e artístico. Hesitei. Pensie no que antes não havia pensado: o que faria um homem daquele solteiro? Um pedaço de mau caminho procurando um amor na internet?! Estranho...

Mas respondi à adesão com uma mensagem eletrônica e começamos a nos falar quase todos os dias, por ali, pelo meio virtual. Dali passamos para o telefone. desu do céu, que voz!

Eu estava apaixonada. Não, eu estava no mínimo encantada por aquele homem. E decidi conhecê-lo. E marcamos nosso primeiro encontro, em um restaurante francês, com toda a finesse e romantismo que um início de história de amor merece.

Cheguei lá e ele já estava à mesa. Aquele homem alto, de costas para a porta, sentado a minha espera. Eu, trêmula, contornei a mesa. Ele imediatamente se levantou.

Foi aí o momento fatídico! Como que em um desastre, todo o meu encanto caiu por terra. Toda aquela imagem de Luis Gásquez, o homem perfeito, desmoronou.

Não, ele não tinha bafo. Não usava gel no cabelo, mas não era despenteado. Não estava de calça justa. Ele estava muito bem vestido, por sinal. Mas... usava sapato de bico fino. Meu Pai, como eu odeio homem de sapato de bico fino!

Eu quis correr daquele lugar. Nunca mais queria ver Luis. Tudo o que ele dizia, por mais inteligente que fosse, parecia asneira. Passei a odiar Baudelaire só porque ele disse gostar.

Minha paixão acabou. Acabou meu encantamento.

Todos os sonhos e pensamentos se foram junto daquela imagem de "sapato-de-bico-fino -matador-de-baratas-em-canto-de-sala". Jantei com o moreno, mas meu olhar não conseguia desviar dos sapatos. Não soube disfarçar. Foi um desastre.

E depois daquele dia nunca mais quis ver Gásquez. Até jmudei meus telefones. Não respondia às mensagens eletrônicas, bloqueei seu endereço e deletei meu perfil da página de relacionamentos.

Como é difícil a paixão e o encantamento! A realidade vai às avessas deles.

O virtual muitas vezes alimenta muito mais o sonho que o real.

Já fala Deleuze sobre esta linha tênue que separa o que virtualizamos de nossa realidade.

E a paixão tem dessas coisas. Conhecer o outro de fato pode causar estranhamento.

Talvez se não conhecesse Luis Gásquez até hoje sonharia com ele, esperaria por ele, o desejaria.

Mas a realidade me fez desistir. Ela me colocou diante de sapatos de bico fino, os quais não pertenciam ao meu sonho.


Querer

Eu quis brincar de amor, meu bem, mas você só quis brincar comigo. Eu quis lhe dar todo o amor, mas você apenas me quis na efemeridade das horas, e dos beijos, e dos afagos. Eu quis lhe fazer uma canção, mas você não quis cantá-la. Eu quis lhe escrever um verso, mas você não quis completar minha estrofe.
Agora eu quero saber como não querer. Deus, como posso com este desejo que tem corpo e alma?
Quero rasgar o verso pra não mais recitá-lo, mas a poesia se completa quando penso em fazê-lo. Desafino a canção na sofreguidão de minha voz que a balbucia com sentimento de intérprete.
Só em pensar em desprezar os beijos, o desejo por eles aumenta. Deus, tanto querer! Tanto não querer!
Entreguei minh'alma ao amor, mas ele não retribuiu. Ou retribuiu com carne apenas o que me penetra esqueleto e vísceras, o que me pulsa e me traz vida. Vida e morte.
Não quero mais querer. Não suporto mais este querer. A dor mora ao lado do desejo. A dor mora ao lado do amor.
Quero paz às lembranças, quero silêncio ao coração. Não quero amar, mas quero. Não quero porque o amor não me quer.
Vem. Ensina-me a não querer amar-lhe tanto. Ensina-me a viver sem você sabendo que existe. Ensina-me a sobreviver ao passar das horas na sua ausência. Ensina-me a respirar um ar que não seja o seu, que não me lembre o seu.
Liberta-me da sua prisão. Solta minh'alma ao vento.
Quero a liberdade de poder querer outro querer.
Quero poder encontrar um querer que queira o meu.
Devolva-me a vida, as vontades, os sentidos. Dá de volta meu poder de sentir e perceber meu coração como meu, meu corpo como meu.
Queira-me como lhe quero e eu canto.
Se não, devolva minha canção.